quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Acrilírico

Minha vida, antes estranha, agora arranha cada detalhe de minha constante indecisão. Sinto como se tentasse em vão, não chegar ao chão, de minha sanidade que brinca solta sobre uma corda bamba. Queria dizer, escrever, sentir tantas coisas... tantas horas... mas perco-me entre as pontuções, armo-me de metáforas e acabo por transmitir banalidades. Meu pensamento tem vagado, distraidamente descuidado, tentando achar um motivo, tolo ou não para enganar o tempo, disfarçar meu alento ou simplesmente destruir a continuidade. A cada frase, a hesitação, mas minha emoção me faz ir adiante, talvez ao horizonte de uma saudade que me desconcerta. Quem me dera poder seguir uma lógica, encontrar uma órbita e expressar-me melhor sob minha ausência. Quem me dera em um mergulho, poder prender meu futuro e retrocedê-lo a um abraço. Um abraço que ainda guardo, um pouco amarrotado...pelo nó que sinto em minha garganta... 


Paullo Lenore.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Rivière

Pudera eu ser como um rio e entregar-me a jornada inquietante de seguir sempre em frente, sem destino, sem medos, sem bagagem. Consciente de meus limites, porém indiferente às margens que limitam meu desejo interminável de descobrir. Solto entre curvas, pedras e sentimentos, flutuaria sobre o doce sussurrar das águas; sentindo o vento carregar lentamente todas as lembranças fúteis de uma liberdade equivocada. Sentiria o amor se espalhar de forma gratuita através da própria solidão do existir, preenchendo todo e qualquer vazio com gotas de um implacável fluxo de redenção. Muitas direções, muitos obstáculos, internamente apenas a paz. A paz em seguir, a paz em sentir, a paz em não dizer. Entre inevitáveis curvas, presenciaria a derrota da melancolia, cujos restos seriam perdidos na turbulência do imprevisível fluir da vida. Nada a se esperar, porém tudo a acontecer, constantemente, naturalmente, como sempre imaginei, porém contrário a qualquer expectativa. Na ausência de preocupações, a tranqüilidade, que jamais foi inexistente, elevar-se-ia a superfície tornando todas as tempestades apenas alimento para evolução das nascentes. Seguindo suavemente o declive de meus pensamentos, supriria a calmaria de meus sentidos com afluentes de sensações, incansavelmente, livremente, perdido no meu próprio silêncio. Até que por fim, o completo seria apenas o começo, a calma seria apenas o estopim da euforia, as margens seriam insuficientes para conter a abundância e o meu eu seria apenas o início de um interminável oceano...



Paullo Lenore.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Eterno Viajante

Na dúvida entre fuga ou ilusão, limito-me apenas a caminhar. Passos lentos, largos e mecânicos, perdidos em um carnaval abstrato de cores, pessoas, carros e incertezas. Um olhar vago disfarçando com ironia uma mente turbulenta, insistente, paranoica, doentia, brilhante. Nada como o vazio para anestesiar e liberar forças estranhas há muito escondidas, esquecidas em algum lugar distante dos breves momentos de euforia. Nessas horas, sentimentos lutam por constância, machucando, dançando, consumindo, até entrarem por fim em colisão... Caindo em pedaços... Alguns pequenos demais para voltarem a ser. Pausa. Olhos cerrados e um suspiro profundo. Volto a andar. Tudo parece tão estático... Como memórias que se perdem ao surgir em câmera lenta, presas em um tempo monótono, aéreo da realidade, repetindo-se com uma intensidade desnecessária, imparcial e perfeitamente substituível. Fatos, mentiras e conseqüências brincam ao longo do fluxo interminável de devaneios. Certo ou errado. Glória ou arrependimento. Tudo ao mesmo tempo e com a mesma pequenez, provocando a cegueira ao ponto de encontrar inevitavelmente a sobriedade. Magnífica, insuportável, reverente. Um tropeço. A alienação se esvai... Suavizando, esclarecendo e permitindo idéias paralelas aos sonhos e tentativas. Minha batalha inconsciente entrega-se ao cansaço, esgotando sentidos e sofrendo o impacto de sua própria redenção. Reúno as sobras e com elas reconstruo meu âmago.  Continuo a andar. Um brilho surge no olhar, sem justificativas e culpa. De certa forma pareço vencer. De certa forma algo me conforta. De algum modo me sinto novamente impulsionado a caminhar...com passos lentos... largos...mecânicos...perdidos...no meu amargo...insaciável...eu.


Paullo Lenore

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Eros


Na tentativa de conter as ruínas de minha sanidade, aprecio o amargo sabor do meu cálice de inquietude, resguardando-me de utopias, porém distante de ceder à covardia de não acreditar em possibilidades. Como uma voz suspensa em um sonho, ouço repetidamente os ecos de meus próprios versos, tão verossímeis quanto minha vontade de desfrutar ao menos uma vez o amor fora das entrelinhas. Longe de comparações supérfluas, minha complexa personalidade parece sucumbir ao simples pensamento de poder expressar, distante de palavras, o meu exíguo ser ansioso por ternura. Se a mim foi dado o insólito poder de cuidar, que seja meu por direito aquilo que realmente for merecedor de meu insaciável afeto. Distante de livros, filmes e vãs histórias, que meu carinho possa encontrar alívio sobre a presença de uma companhia receptiva ao meu verdadeiro poder de amar incondicionalmente. O tempo não desfaz esperanças, apenas apaga de nossas vidas aquilo que realmente não cultivamos com intensidade. Sendo assim, tendo como ponto primordial ser feliz apesar das adversidades, creio que meu desejo em cativar seja eterno, visto que minha solidão e o passar dos anos se mostraram apenas grãos de areia em um oceano de expectativas. Com as incertezas do amanhã, o agora se concretiza no meu doce devaneio de poder viver tudo aquilo que sinto e que em meu peito transborda, sentindo na espera cruéis espinhos, porém sem nunca parar de apreciar a esperança no terno aroma das rosas.

Paullo Lenore.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

360


Paredes se fecham à medida que a insanidade ergue-se em longos pilares de incoerência. O que antes chamavam de evolução, torna-se apenas algo previsivelmente leviano. Como se o grande impacto do moderno se reduzisse a um simples revés. Grandes heróis se prendem às armadilhas do esquecimento e aos poucos vão sendo representados por personalidades de plástico. A ausência do sentir justifica o vazio não preenchido por lágrimas, antes abundantes, agora substituídas por um vácuo materialista. Hoje tudo tem seu valor, porém em uma lógica destituída de valores. O sagrado se mistura ao grotesco, à medida que o fanatismo de alguns se sobrepõe até mesmo às leis da metafísica. E por fim, o caos da estupidez se espalha em uma pandemia desenfreada, infectando mentes que por transbordarem informações, acabam encontrando-se vazias. Resta apenas o amargo sabor da realidade, onde a inépcia chega ao ponto de se confundir a liberdade, expressando-se em ínfimos cinquenta tons do ridículo. Porém, visto que a verdade encontra-se atualmente disfarçada em néon, cabe a mim apenas saborear a incerteza do amanhã, arranhando com voracidade, a utopia de um dia entender o mundo em sua patética desordem.

Paullo Lenore.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Máscaras


Cortinas se abrem lentamente à medida que silhuetas surgem em fluxos aleatórios. Caminhos opostos, renúncias desiguais, rostos que se perdem em uma profusão de anonimato. Como em um baile de máscaras, o visível é apenas uma superfície opaca e ilusória, onde o que se vê é apenas um disfarce para o que realmente se mantém oculto. A mente por si só constrói labirintos, inexoravelmente complexos e profundos com barreiras impenetráveis, altas demais para serem expostas em apenas cinco sentidos. Somos por essência, partes de um infinito destituído de qualquer lógica, entregues ao nosso próprio subconsciente e presos á uma órbita incompatível à razão. Assim como personalidades são desiguais, sentimentos se diferem em intensidade, portanto jamais haverá interpretação plausível à força de um olhar.  Incertos de nossas próprias capacidades, nos tornamos inviáveis para julgar o que não conhecemos, pois se o fizermos, estaremos renunciando o direito de possuir nossa própria identidade incompreendida. Faces são apenas máscaras, irregulares, imprevisíveis e descartáveis. Corpos são apenas reflexos do supérfluo, vulneráveis aos movimentos assimétricos do acaso. Não cabe a ninguém determinar fatos por aparências, visto que além do visível, há apenas a eterna ausência de precisão em discernir o verdadeiro dentre as intermináveis incógnitas do desconhecido.

Paullo Lenore.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

8 ou 80


Como traços abstratos, desenhados sob a superfície fria de um muro de concreto, deixo-me levar entre cores neutras, na esperança de que meu vazio seja preenchido com o ácido sabor do desconhecido. Cansado de procurar razões, abandonei filosofias e vícios no intuito de apenas permitir-me ser. Cansado de procurar respostas em biografias alteradas, fui aos poucos derrotando meus heróis. Exausto em tentar disfarçar minha personalidade com frases feitas, estou aprendendo a ser verdadeiro na intensidade do meu olhar. Após ser derrotado diversas vezes pela fria realidade, levanto uma bandeira branca! Não mais criarei mundos aleatórios, pois na verdade minha tentativa de isolamento era inútil, visto que, jamais conseguirei esconder-me de mim mesmo. Quando tudo parece pequeno e o pouco se torna sem sentido é mais fácil caminhar, andando sem rumo e solitário até reencontrar em si mesmo a força necessária para se sentir bem sem intervenções. Sei que nada jamais será o suficiente, assim como sei que o vazio sempre estará ao lado, mas a vontade de experimentar, criar e sentir são acima de tudo motivos reais para seguir em frente. Para não correr o risco de andar por caminhos errôneos, prefiro andar sem direções; se eu me perder, pelo menos saberei que estou seguindo em frente e não parado esperando encontrar um caminho certo a seguir.

Paullo Lenore.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Phoenix


Pudera a vida ser desigual como as nuvens. Talvez assim, eu pudesse me perder entre formas desconexas deixando-me levar pelo doce sabor do imprevisível. Por tentar entender, deparei-me com o inexplicável. Respostas apenas elevavam novas paredes de um labirinto sem saída. Perguntas surgiam como enigmas cada vez mais complexos e frios; por não encontrar uma forma lógica para decodificá-los, criei em mim mesmo meu próprio Vietnã. Declarei guerra á minha própria decadência e usei todas as minhas armas para lutar contra o caos causado pelas consequências. Após tortuosos confrontos, aparentemente sem fim, encontrei na simplicidade do amor uma fonte interminável de munição. Reduzindo ao pó toda negatividade, consegui visualizar melhor o meu redor, enxergando pela primeira vez o que antes pela ignorância eu era cego. Entre destroços e ruínas vi florescerem rosas cálidas; antes banhadas ao fogo, agora renascidas das cinzas em brotos de esperança.  Nuvens negras, que contornavam o horizonte sucumbiram ao calor estonteante da liberdade. O vento suavemente contornou um sólido recomeço e a percepção de poder tentar de novo tornou-se suficiente para justificar todos os esforços da batalha. Enfim, pude compreender que apenas pelo amor a dor se transforma em reinvenção, e como uma fênix ressurge das cinzas, é da decadência de perspectivas que renasce o imaculado brilho de um amanhã.

Paullo Lenore.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Frozen (Slide show)

Com carinho criei este slide show com o mensagem de meu último post: Frozen, espero que apreciem...



Paullo Lenore.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Frozen


Sob o frio da indiferença, permiti-me congelar em vulnerabilidade. Entreguei-me inteiramente à esperança, porém perdi-me no horizonte vago das circunstâncias. Meu sentimento puro pareceu sucumbir à densidade de minhas ilusões e tudo o que antes eu rotulava como válido foi reduzido ao simples moldar de uma mentira. Com o torturar do tempo pude perceber a doce vingança de um livre-arbítrio, antes por mim consagrado, mas que agora asfixia todos os esforços de um sentimento não retribuído. Pudera eu entender a capacidade humana de se render ao vazio aniquilando com insensatez, todas as escolhas que poderiam pela simplicidade fazer a diferença. Quisera eu acreditar que existem coincidências, porém vejo que na verdade elas são apenas miragens de algo supostamente desejado e refletido pelo acaso. O impossível só acontece quando o fazemos acontecer, em uma condição imutável, sendo que o possível é apenas algo contraditório e pouco duradouro. Eu poderia me entregar ao arrependimento e desejar que fatos jamais tivessem acontecido, porém prendo-me a decepção e dela extraio toda essência, até que por experiência própria ela se torne algo premeditado que nunca poderá se repetir. Entre o torpor de uma realidade hipócrita, quero manter-me sóbrio para testar com convicção os limites de minha perseverança, deixando apenas minha impotência se embriagar em covardia. Prefiro anestesiar minha imunidade a me prender a ilusão de ser inalcançável, reconheço-me fraco, porém por este reconhecimento me torno capaz de resistir a todas as adversidades que outrora puderam me atingir preenchendo minha mente com insignificância. Minha consciência não é um reflexo do meu ego; minha personalidade não me permite ser julgado; minha mente não comanda todos meus atos, mas apenas meus sonhos podem dizer exatamente quem eu sou.

Paullo Lenore.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Enigma


Pensamentos paralelos constituem em minha mente um cenário paradisíaco. Lembranças lutam de maneira caótica por uma perspectiva real, ignorando o fato de serem apenas momentos entregues ao acaso. Tentando arduamente representar imagens à velocidade de minha imaginação, o tempo se torna um ávido ladrão de matizes. Em leves segundos, os minutos criam forma, ameaçando-me com o inevitável surgir das horas. Com lágrimas a óleo, consigo criar um contraste incisivo a alegres tons de luz, como se fosse possível tornar a dor consequente ao êxtase. Com leves traços abstratos, tento disfarçar decepções sob uma imensidão de formas puras em saudade. Entre significados ocultos em formas, a realidade é deixada a um plano sem contornos, por trás de uma profusão de imagens multicores. Retoques finais dão origem a um novo conjunto de idéias, porém já se esgotaram os espaços. Com um olhar crítico, faço uma análise detalhada de minha criação e eis que me surpreendo por ter representado com fidelidade aquilo que antes parecia confuso e indescritível. Vejo momentos aparentemente eternos desfeitos em linhas de expressão. Vejo marcas de um passado remoto repleto de alegrias e traumas. Vejo nostalgia, sonhos, alegria e poder misturados em constantes pinceladas de melancolia. Vejo o passado e o presente se unirem formando um futuro ameaçador, porém ao mesmo tempo confortante. Por fim, vejo um brilho peculiar de esperança e de repente me reconheço... no inquietante olhar de meu autorretrato.

Paullo Lenore.

Leia também: Febre

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Masterpiece


Apesar de minha postura abstrata e inconsciente, consigo por hábito visualizar o que me cerca. Ao mesmo tempo em que me deixo levar por movimentos assimétricos de um espaço urbano, sinto a vida se tornar arte. Com uma performance única e intensa, funções motoras se equilibram á altos e baixos, em uma harmonia própria, onde o simples ato de existir serve como razão ao aperfeiçoamento. Acontecimentos aleatórios seguem uma frequência própria, dando origem á um ritmo excêntrico ao qual o bem e o mal sempre retornam em duplicidade àqueles que os executam. Em uma coreografia voltada a excelência, pequenas falhas são apenas lições para uma evolução com tempo incerto para expirar. Sorrisos e lágrimas concretizam a todo instante o pulsar das emoções, intensas demais para se manterem presas entre corpos biológicos. E ao redor de tantos movimentos, voltas e passos, um cenário deslumbrante, milimetricamente desenhado em contornos surreais, abraça o que chamamos imperatoriamente de lar. Inovações, saltos e cores dão sequência à grandiosa dança que apesar de improvável, segue seu curso em direção a única certeza adiante, a de um grand finale. À medida que os refletores se posicionam e os artistas se preparam para o último movimento, eis que tudo se torna estático, e após alguns insólitos segundos, tudo se recomeça, fazendo com que a vida se torne a única apresentação magnífica onde cada fim é apenas um novo começo...

Paullo Lenore.