terça-feira, 27 de setembro de 2011

Febre


A minha vontade é invulnerável como o ar com o som da minha voz; mas apesar de forte, se encontra frágil perante a densidade da razão. Escondendo sonhos da infame verdade de não poder ter tudo que estimo; sinto-me perdido entre devaneios de luxúria. Desejos me aquecem como febre queimando sobre a pele, onde o simples ato de pensar me detém como uma fonte de delírios. Sendo assim, devo àquele a quem a capacidade de sonhar me deu em excessos, o simples primor de apresentar minha devoção inconsequente; pois minha armadura de metáforas não me protege e me é vão seu uso, visto que não há como esconder-me da lógica e da obviedade. Entre poemas e retratos, imagens oníricas se confundem com a realidade em uma profusão de lembretes fantasmagóricos; fazendo com que a sede do meu querer se atormente sob o brilho do improvável. Confesso ser apenas um alvo de minha ousadia e que minha insanidade em sempre querer mais, é apenas outra armadilha de minha própria exigência doentia. Confesso que quando minha esperança se entrelaça entre o tudo e o nada, os sonhos se tornam apenas pensamentos envoltos por idéias instáveis, e o que antes pareciam ser objetivos, se tornam apenas devaneios do que poderia ser. Mas apesar de tudo, entre a dúvida de sonhar ou me tornar apenas um cético ser pensante, me prendo à idéia de que tudo pode se tornar real, ao menos em minha inesgotável imaginação. Afinal, se em meu querer tudo posso, pelo meu querer serei um eterno sonhador...

Paullo Lenore.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Insônia


Noite fria. Ruas estáticas. Coração em febre. Sentimentos confusos desconectados de qualquer racionalidade. Sentidos dilatados por doses homeopáticas de alienação, enquanto tudo ao redor se perde em contornos assimétricos. O céu sendo ameaçado por longas torres de concreto. Estrelas demonstrando o poder do infinito em contraste com paredes limitando espaços. Sob a lua que mantém as ilusões a um nível alucinógeno. Sob o silêncio onde se estende a madrugada. Pensamentos flutuam sobre fatos inexistentes e um passado que de certa forma parece irreal. A consciência gritando arrependimentos e recebendo de volta justificativas em ecos. O tic-tac do relógio em um balanço monótono de acordes repetidos. O livro jamais terminado. A música que não faz mais efeito. Tarde demais para ligar para alguém. Cedo demais para formular idéias. Pessoas e flashes retomam vida criando porquês. Desejos e planos mentalizados mais uma vez mecanicamente. Ao longe, sons desconexos surgem como lembretes de que a vida não para. A sensação de abandono ao estar sozinho em uma sobriedade doentia. A percepção fria de que ter alguém ao lado não é sinônimo de companhia e que no fim todos nós somos apenas solitários em caminhos singulares. Palavras, suspiros, versos. Momentos que se desvanecem a uma redenção premeditada ao nascer de um novo dia. Devaneios, pensamentos, indagações. Tudo parece tão distante que é difícil associá-los a fatos relevantes ao presente. E assim, todos se entregam à consciência embriagada de recomeçar um novo dia, enquanto as verdades apenas se transparecem ao calor de uma insônia...


Paullo Lenore.