terça-feira, 23 de julho de 2013

Rivière

Pudera eu ser como um rio e entregar-me a jornada inquietante de seguir sempre em frente, sem destino, sem medos, sem bagagem. Consciente de meus limites, porém indiferente às margens que limitam meu desejo interminável de descobrir. Solto entre curvas, pedras e sentimentos, flutuaria sobre o doce sussurrar das águas; sentindo o vento carregar lentamente todas as lembranças fúteis de uma liberdade equivocada. Sentiria o amor se espalhar de forma gratuita através da própria solidão do existir, preenchendo todo e qualquer vazio com gotas de um implacável fluxo de redenção. Muitas direções, muitos obstáculos, internamente apenas a paz. A paz em seguir, a paz em sentir, a paz em não dizer. Entre inevitáveis curvas, presenciaria a derrota da melancolia, cujos restos seriam perdidos na turbulência do imprevisível fluir da vida. Nada a se esperar, porém tudo a acontecer, constantemente, naturalmente, como sempre imaginei, porém contrário a qualquer expectativa. Na ausência de preocupações, a tranqüilidade, que jamais foi inexistente, elevar-se-ia a superfície tornando todas as tempestades apenas alimento para evolução das nascentes. Seguindo suavemente o declive de meus pensamentos, supriria a calmaria de meus sentidos com afluentes de sensações, incansavelmente, livremente, perdido no meu próprio silêncio. Até que por fim, o completo seria apenas o começo, a calma seria apenas o estopim da euforia, as margens seriam insuficientes para conter a abundância e o meu eu seria apenas o início de um interminável oceano...



Paullo Lenore.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Eterno Viajante

Na dúvida entre fuga ou ilusão, limito-me apenas a caminhar. Passos lentos, largos e mecânicos, perdidos em um carnaval abstrato de cores, pessoas, carros e incertezas. Um olhar vago disfarçando com ironia uma mente turbulenta, insistente, paranoica, doentia, brilhante. Nada como o vazio para anestesiar e liberar forças estranhas há muito escondidas, esquecidas em algum lugar distante dos breves momentos de euforia. Nessas horas, sentimentos lutam por constância, machucando, dançando, consumindo, até entrarem por fim em colisão... Caindo em pedaços... Alguns pequenos demais para voltarem a ser. Pausa. Olhos cerrados e um suspiro profundo. Volto a andar. Tudo parece tão estático... Como memórias que se perdem ao surgir em câmera lenta, presas em um tempo monótono, aéreo da realidade, repetindo-se com uma intensidade desnecessária, imparcial e perfeitamente substituível. Fatos, mentiras e conseqüências brincam ao longo do fluxo interminável de devaneios. Certo ou errado. Glória ou arrependimento. Tudo ao mesmo tempo e com a mesma pequenez, provocando a cegueira ao ponto de encontrar inevitavelmente a sobriedade. Magnífica, insuportável, reverente. Um tropeço. A alienação se esvai... Suavizando, esclarecendo e permitindo idéias paralelas aos sonhos e tentativas. Minha batalha inconsciente entrega-se ao cansaço, esgotando sentidos e sofrendo o impacto de sua própria redenção. Reúno as sobras e com elas reconstruo meu âmago.  Continuo a andar. Um brilho surge no olhar, sem justificativas e culpa. De certa forma pareço vencer. De certa forma algo me conforta. De algum modo me sinto novamente impulsionado a caminhar...com passos lentos... largos...mecânicos...perdidos...no meu amargo...insaciável...eu.


Paullo Lenore

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Eros


Na tentativa de conter as ruínas de minha sanidade, aprecio o amargo sabor do meu cálice de inquietude, resguardando-me de utopias, porém distante de ceder à covardia de não acreditar em possibilidades. Como uma voz suspensa em um sonho, ouço repetidamente os ecos de meus próprios versos, tão verossímeis quanto minha vontade de desfrutar ao menos uma vez o amor fora das entrelinhas. Longe de comparações supérfluas, minha complexa personalidade parece sucumbir ao simples pensamento de poder expressar, distante de palavras, o meu exíguo ser ansioso por ternura. Se a mim foi dado o insólito poder de cuidar, que seja meu por direito aquilo que realmente for merecedor de meu insaciável afeto. Distante de livros, filmes e vãs histórias, que meu carinho possa encontrar alívio sobre a presença de uma companhia receptiva ao meu verdadeiro poder de amar incondicionalmente. O tempo não desfaz esperanças, apenas apaga de nossas vidas aquilo que realmente não cultivamos com intensidade. Sendo assim, tendo como ponto primordial ser feliz apesar das adversidades, creio que meu desejo em cativar seja eterno, visto que minha solidão e o passar dos anos se mostraram apenas grãos de areia em um oceano de expectativas. Com as incertezas do amanhã, o agora se concretiza no meu doce devaneio de poder viver tudo aquilo que sinto e que em meu peito transborda, sentindo na espera cruéis espinhos, porém sem nunca parar de apreciar a esperança no terno aroma das rosas.

Paullo Lenore.