quinta-feira, 30 de maio de 2013

Eterno Viajante

Na dúvida entre fuga ou ilusão, limito-me apenas a caminhar. Passos lentos, largos e mecânicos, perdidos em um carnaval abstrato de cores, pessoas, carros e incertezas. Um olhar vago disfarçando com ironia uma mente turbulenta, insistente, paranoica, doentia, brilhante. Nada como o vazio para anestesiar e liberar forças estranhas há muito escondidas, esquecidas em algum lugar distante dos breves momentos de euforia. Nessas horas, sentimentos lutam por constância, machucando, dançando, consumindo, até entrarem por fim em colisão... Caindo em pedaços... Alguns pequenos demais para voltarem a ser. Pausa. Olhos cerrados e um suspiro profundo. Volto a andar. Tudo parece tão estático... Como memórias que se perdem ao surgir em câmera lenta, presas em um tempo monótono, aéreo da realidade, repetindo-se com uma intensidade desnecessária, imparcial e perfeitamente substituível. Fatos, mentiras e conseqüências brincam ao longo do fluxo interminável de devaneios. Certo ou errado. Glória ou arrependimento. Tudo ao mesmo tempo e com a mesma pequenez, provocando a cegueira ao ponto de encontrar inevitavelmente a sobriedade. Magnífica, insuportável, reverente. Um tropeço. A alienação se esvai... Suavizando, esclarecendo e permitindo idéias paralelas aos sonhos e tentativas. Minha batalha inconsciente entrega-se ao cansaço, esgotando sentidos e sofrendo o impacto de sua própria redenção. Reúno as sobras e com elas reconstruo meu âmago.  Continuo a andar. Um brilho surge no olhar, sem justificativas e culpa. De certa forma pareço vencer. De certa forma algo me conforta. De algum modo me sinto novamente impulsionado a caminhar...com passos lentos... largos...mecânicos...perdidos...no meu amargo...insaciável...eu.


Paullo Lenore