terça-feira, 23 de julho de 2013

Rivière

Pudera eu ser como um rio e entregar-me a jornada inquietante de seguir sempre em frente, sem destino, sem medos, sem bagagem. Consciente de meus limites, porém indiferente às margens que limitam meu desejo interminável de descobrir. Solto entre curvas, pedras e sentimentos, flutuaria sobre o doce sussurrar das águas; sentindo o vento carregar lentamente todas as lembranças fúteis de uma liberdade equivocada. Sentiria o amor se espalhar de forma gratuita através da própria solidão do existir, preenchendo todo e qualquer vazio com gotas de um implacável fluxo de redenção. Muitas direções, muitos obstáculos, internamente apenas a paz. A paz em seguir, a paz em sentir, a paz em não dizer. Entre inevitáveis curvas, presenciaria a derrota da melancolia, cujos restos seriam perdidos na turbulência do imprevisível fluir da vida. Nada a se esperar, porém tudo a acontecer, constantemente, naturalmente, como sempre imaginei, porém contrário a qualquer expectativa. Na ausência de preocupações, a tranqüilidade, que jamais foi inexistente, elevar-se-ia a superfície tornando todas as tempestades apenas alimento para evolução das nascentes. Seguindo suavemente o declive de meus pensamentos, supriria a calmaria de meus sentidos com afluentes de sensações, incansavelmente, livremente, perdido no meu próprio silêncio. Até que por fim, o completo seria apenas o começo, a calma seria apenas o estopim da euforia, as margens seriam insuficientes para conter a abundância e o meu eu seria apenas o início de um interminável oceano...



Paullo Lenore.